Imagine

Photo by Úrsula Madariaga from Pexels
Photo by Úrsula Madariaga from Pexels

Eu já não quero ser negativa. Prometi a mim própria que este ano iria mudar, porque o ano passado foi muito sombrio. Porém hoje perdi mais um pouco de fé no ser humano.

Quando era mais nova e certamente porque cresci em França num ambiente de segurança e confiança, pensava que os conceitos de machismo e racismo eram obsoletos e anacrónicos. Contudo, à medida que fui envelhecendo e vendo um pouco do mundo apercebi-me da triste realidade.

Estamos no século XXI e vivo na Europa, no entanto, não significa que as pessoas sejam mais evoluídas que em tempos passados ou sítios diferentes. Nos anos 90 pensava-se que no século XXI o progresso seria tal que poder-se-ia mover objetos com a mente e deslocar-se com carros voadores. Em vez disso em 2020, ainda temos de lutar contra essas pragas diante das nossas portas.

Hoje de manhã conheci um senhor Inglês que vive há seis anos em Portugal com a família. É carpinteiro e trabalhou com o pai na Inglaterra. Quando chegou cá, comprou uma quinta no centro do país com as suas poupanças. Queria viver da terra e da sua arte, mandou arranjar uma casa de pedra que estava abandonada há 20 anos. Porém um empreiteiro pouco escrupuloso recebeu o dinheiro e partiu sem acabar a obra. O senhor processou o homem sem sucesso. Em 2018, um incêndio matou o gado todo que ele tinha e devastou oliveiras e sobreiras centenárias. Também perdeu um barracão cheio de recordações que tinha trazido do país natal. A família ficou arruinada, as bombas que lhe traziam água para casa também arderam. Procurou ajuda na junta de freguesia e na Câmara, mas ninguém quis saber, nem os organismos ambientais prestaram atenção. O senhor Inglês que é ambientalista, como diz o povo com ironia teve de ir buscar água ao rio para as suas necessidades básicas. Apercebeu-se que a conhecida empresa que controlava a pureza da água para a rede do distrito usava produtos tóxicos. Denunciou a mesma para um advogado ecologista que encobriu a informação. A família encontrou-se na altura sem água potável, nem eletricidade, nem dinheiro e dormia no chão da casa de pedra. O senhor pensou acabar com a própria vida. Os sonhos dele tinham ardido, não conseguia sustentar a família e ninguém queria saber deles para nada. Hoje, ele tenta viver um dia de cada vez, agarrando-se à ideia que a família precisa dele. Por fim disse-me: « Portugal é um país maravilhoso, mas com gente muito má ».

Quando contei essa história ouvi comentários como: « essa estrangeirada pensa que vem aqui e que manda em tudo e todos. » « Muita gente perdeu tudo nos incêndios, não são os únicos. » « Esses estrangeiros ambientalistas são perigosos, só sabem fazer denuncias. » « Eles compram tudo. Todas as quintas à nossa volta. É só Franceses, Ingleses e Alemães agora. »

Esta história veio aos meus ouvidos uma semana depois do aparecimento do Corona vírus. Pude ouvir outros comentários tão sábios como: « claro uma epidemia, só podia vir da China, nada do que vem de lá é bom. » « Eles comem gatos e cobras. » « Nem se pode respirar nas cidades, vê-se bem nas notícias, eles andam todos com máscaras. » « Já ouvi dizer que até cultivam o arroz em água suja. » « A mão de obra é barata e nada tem qualidade. » « Se calhar é melhor não ir ao restaurante ou às lojas Chinesas, somos capazes de apanhar o vírus. » « Já vieram para cá a encher-nos de lojas rascas em cada esquina, mataram os nossos comércios e agora querem trazer também as suas doenças ».

É triste sim, mas é a nossa realidade. O país e o resto do mundo fartam-se de vender partes de empresas nacionais à China, mas depois não querem ver Chineses. É triste sim, um país que desde o Salazarismo migrou para outros lugares do mundo para encontrar uma vida melhor, ser tão preconceituoso e desconfiado dos estrangeiros.

Sei que não são os únicos, porque quando estive em França os imigrantes de África do Norte levavam por tabela.

Quando estive na Suíça pude ouvir coisas como: « É melhor dizeres que és Portuguesa e não Francesa. Os Portugueses são trabalhadores enquanto os Franceses são arrogantes e preguiçosos.

– Claro, pensei eu, os Portugueses aceitam trabalhos mal pagos que vocês nem querem, enquanto os Franceses vêm para roubar os bons empregos que vocês não conseguem. »

Mas o facto que me perturbou mais foi quando pedi a autorização de trabalho C, aquela que tantos imigrantes ambicionam. Tive de preencher um formulário e fornecer n provas de bom comportamento (não ter dividas, nem cadastro, folhas de salário…). Porém descobri que os requerentes vindos de certos países da Europa de Leste tinham de redigir uma carta de motivação. Não estou a brincar, deviam descrever a razão porque queriam ficar na Suíça, como para serem aceites numa universidade ou num concurso. Fiquei tão revoltada… Mas nunca soube o motivo de um tal procedimento, talvez por razões políticas.

Isto para concluir que a discriminação e o racismo ainda estão bem enraizados nos espíritos das pessoas. Essas mesmas que pensavam que no século XXI seriam tão evoluídas que iriam controlar objetos com a mente. Aqui está a prova que, em 2020, no nosso cérebro uma parte primitiva ainda está bem ativa.

france-flag-clipart  Imagine

Je ne veux plus être négative. Je me suis promis que cette année allait changer car la précédente avait été très sombre. Mais aujourd’hui, j’ai perdu un peu plus ma foi en l’être humain.

Quand j’étais plus jeune, et certainement parce que j’ai grandi en France dans un climat de sécurité et de confiance, je pensais que les concepts de machisme et de racisme étaient obsolètes et anachroniques. Cependant, en vieillissant et en voyageant un peu, j’ai réalisé la triste réalité.

Nous sommes au XXIe siècle et je vis en Europe, mais cela ne signifie pas que les gens soient plus évolués que dans les siècles précédents ou que dans d’autres pays. Dans les années 90, on pensait qu’au XXIe siècle, l’évolution serait telle que l’on pourrait soulever les objets par l’esprit et se déplacer dans des voitures volantes. À contrario en 2020, nous devons encore combattre ces fléaux à nos portes.

Ce matin j’ai rencontré un Anglais qui vit au Portugal depuis six ans avec sa famille. En Angleterre, il était menuisier et travaillait avec son père. À son arrivée il a acheté un terrain dans le centre du pays avec ses économies. Il voulait vivre de la terre et de son art. Il a fait restaurer une maison de pierres qui était là, abandonnée depuis 20 ans. Mais son entrepreneur peu scrupuleux a reçu l’argent puis est parti sans avoir terminé le travail. « L’Anglais » poursuivi l’homme en justice sans succès. En 2018, un incendie a décimé tout le bétail qu’il possédait et a détruit ses oliviers et chênes centenaires. Il a également perdu un hangar rempli de souvenirs qu’il avait ramené de son pays d’origine. La famille était ruinée, les pompes qui lui apportaient l’eau à la maison avaient également brûlé. Il a demandé de l’aide au maire du village et au conseiller municipal, mais personne ne s’en est soucié, même pas les organismes environnementaux. « L’Anglais », qui est écologiste comme le disent si bien les villageois avec ironie, a dû se fournir en eau à la rivière pour ses premières nécessités. Il s’est rendu compte que la société de renom, qui contrôlait la pureté de l’eau pour le réseau du département utilisait des produits toxiques. Il a dénoncé l’entreprise à un avocat de l’environnement qui a préféré dissimuler l’information. La famille s’est alors retrouvée sans eau potable, sans électricité et sans argent, dormant à même le sol de la maison de pierres. Il a alors pensé mettre fin à ses jours. Ses rêves étaient partis en fumée, il ne pouvait plus subvenir aux besoins de sa famille et personne ne s’en préoccupait. Actuellement, il essaie de vivre au jour le jour en s’accrochant à l’idée que sa famille a besoin de lui. Pour finir, il m’a dit : « Le Portugal est un pays merveilleux mais les gens sont méchants ».

Quand j’ai raconté cette histoire, j’ai entendu des commentaires comme : « ces étrangers pensent qu’ils arrivent ici et peuvent faire tout ce qu’ils veulent ». « Beaucoup de gens ont tout perdu dans les incendies, ils ne sont pas les seuls « . « Ces étrangers écologistes sont dangereux, ils dénoncent leurs propres voisins ». « Ils achètent tout. Toutes les fermes autour de nous. Il n’y a plus que des Français, des Anglais et des Allemands ».

Cette histoire m’est parvenue une semaine après l’apparition du Corona virus. J’ai pu entendre d’autres commentaires aussi savants, tels que : « cette épidémie ne peut venir que de Chine, rien de bon ne vient de là-bas ». « Ils mangent des chats et des serpents. » « Ils ne peuvent même pas respirer dans leurs villes, vous pouvez le voir aux infos, ils portent tous des masques. » « J’ai entendu dire qu’ils font même pousser le riz dans de l’eau polluée. » « La main-d’œuvre est bon marché et rien n’est de qualité. » « On ne devrait pas aller au restaurant ou dans les magasins chinois, on pourrait attraper le virus. » « Ils sont venus ouvrir leurs boutiques de babioles à tous les coins de rue, tuant nos petits commerces et maintenant ils veulent apporter leurs maladies.  »

C’est triste, mais c’est notre réalité. Le pays et le reste du monde vendent des parts d’entreprises nationales à la Chine, mais ne veulent pas voir de Chinois. C’est triste qu’un pays, qui depuis le Salazarisme a migré vers d’autres endroits du monde pour trouver une meilleure vie, soit encore rempli de préjugés et de méfiance envers les étrangers.

Je sais qu’ils ne sont pas les seuls, car lorsque j’étais en France, les Maghrébins en prenaient pour leur grade.

Quand j’étais en Suisse, j’entendais des remarques comme : « Tu ferais mieux de dire que tu es Portugaise et pas Française. Les Portugais sont travailleurs tandis que les Français sont arrogants et paresseux.

– Bien sûr me suis-je dit, les Portugais acceptent des boulots sous-payés dont vous ne voulez pas, tandis que les Français viennent vous voler les meilleurs emplois, que vous n’arrivez pas à décrocher.  »

Mais l’épisode qui m’a le plus troublé a été quand j’ai obtenu le permis de travail C, auquel aspirent tant d’immigrés. J’ai dû pour cela remplir un formulaire et fournir des preuves de bonne conduite (pas de dettes, pas de casier judiciaire, mes bulletins de salaire…). Cependant, j’ai découvert que les candidats de certains pays d’Europe de l’Est devaient eux, joindre une lettre de motivation. Je ne plaisante pas, ils devaient décrire pourquoi ils voulaient rester en Suisse, comme pour être acceptés dans une université ou à un concours. J’étais tellement en colère… Je n’ai jamais su pourquoi une telle procédure existait. Certainement pour des raisons politiques.

Tout cela pour démontrer que la discrimination et le racisme sont encore bien ancrés dans l’esprit des gens. Ces mêmes gens qui croyaient, qu’au XXIe siècle pourraient contrôler les objets par la pensée. Voici la preuve qu’en 2020, dans notre cerveau, une partie primitive est encore bien active.

 

2 commentaires sur “Imagine

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