Papas de Carolo

Hier, j’ai eu envie des desserts de mon enfance, je me suis souvenue des Papas de Carolo et j’ai acheté tous les ingrédients. Cet après-midi, je me suis mise aux fourneaux ou plutôt à la casserole et j’ai suivi une recette que j’ai trouvée sur Internet et qui disait « Papas de Carolo da Beira Baixa ». Je ne savais même pas que c’était une spécialité de la région où j’habite et d’où vient ma famille. La recette m’a semblé incomplète et je me suis rappelé ma grand-mère paternelle qui m’en préparait pour mon plus grand plaisir. On pouvait les manger avec les doigts car ma grand-mère coupait des tranches fermes et généreuses. Je me souviens qu’elle nous confectionnait souvent des choses que l’on aimait, mais bien sûr, je ne me souviens pas de la voir faire. Je m’en suis voulue, j’aurais dû lui demander la recette. Maintenant, il est trop tard, elle ne pourra plus me donner ses secrets de fabrication, elle est atteinte de démence sénile, il ne me reste donc plus que les souvenirs de nos dimanches en famille et des goûters du mercredi. Heureusement, il y a quelques années, un de mes frères a réussi à lui soutirer la recette de sa fameuse pâte à pizza.

C’est dommage. Dommage de ne donner de la valeur aux choses et aux gens qu’une fois perdus. Souvent, le dimanche, elle nous préparait sa spécialité, du couscous, oui étrange pour une Portugaise. Elle avait obtenu cette recette de son ancienne voisine marocaine lorsqu’elle habitait Douai (59). Un régal ! Je me souviens aussi, de ses brownies que ma cousine dévorait, de ses tartes aux pommes, de ses Argolas pour Noël, de son Cozido à Portuguesa, de son gratin de poisson, de ses îles flottantes…

Nos grands-parents nous apprennent tant de choses et bien souvent nous ne les écoutons pas. Quelle adolescente de 12-13 ans est intéressée par la cuisine, le tricot ou la coiffure ? Quelle adolescente préfère passer son mercredi après-midi à écouter les histoires de sa grand-mère au lieu d’aller au parc avec ses amies ? Aujourd’hui tout cela me passionnerait. Pouvoir faire mes propres pulls et écharpes, savoir faire des tresses africaines, du couscous marocain, en savoir plus sur l’enfance de mes grands-parents, jouer encore aux dames avec eux, savoir jardiner et bien sûr savoir cuisiner de mémoire les papas de carolo.

Avec le recul, je comprends aujourd’hui que nos aïeux sont très précieux, une source de connaissance et d’amour intarissable. À presque 40 ans, je peux dire que j’ai eu la chance de connaître tous mes grands-parents et même deux arrières grands-mères. J’en garde des photos et plein de merveilleux souvenirs, mais ce n’est pas assez. Alors quand je rencontre une personne âgée dans le village ou à ma caisse de supermarché, j’engage la conversation et je suis sûre que je vais apprendre quelque chose de nouveau.

sem nome

Ontem, andava com saudades das sobremesas da minha infância, lembrei-me das Papas de Carolo e comprei todos os ingredientes. Esta tarde, comecei então a cozinhar uma receita encontrada na net e que dizia “Papas de Carolo da Beira Baixa”. Nem sequer sabia que era uma especialidade da região onde vivo e de onde é a minha família. Contudo, parecia-me faltar algum ingrediente e lembrei-me da minha avó paterna que me a preparava para a minha grande satisfação. Podíamos comer com os dedos, a minha avó cortava fatias firmes e generosas. Sei que fazia com frequência pratos de que gostávamos, mas claro, não me recordo de ela os preparar. Fiquei com remorsos, devia ter-lhe pedido a receita. Agora, é tarde de mais, ela não me poderá transmitir os seus segredos, ela sofre de demência senil, por isso, tudo o que me resta são as memórias dos nossos domingos em família e os lanches de quarta-feira. Por sorte, há alguns anos, um dos meus irmãos conseguiu que ela revelasse a sua famosa receita de massa para fazer pizas.

É triste. Triste de só dar valor às coisas e às pessoas quando elas já não estão. Muitas vezes, aos domingos, ela preparava a sua especialidade, o cuscuz, o que é pouco comum para uma mulher portuguesa. Recebeu a receita de uma vizinha marroquina quando vivia em Douai (norte de França). Uma delícia! Recordo-me também dos seus brownies que a minha prima devorava, das suas tartes de maçã, das suas Argolas de Natal, do seu Cozido à Portuguesa, do seu gratinado de peixe, das suas farófias…

Os nossos avós ensinam-nos tantas coisas e nós muitas vezes nem prestamos atenção. Quantas adolescentes de 12-13 anos estão interessadas em cozinhar, tricotar ou saber fazer penteados? Quantas adolescentes preferem passar a tarde de quarta-feira a ouvir histórias da sua avó em vez de ir ao parque com as amigas? Hoje, queria muito saber todas estas coisas. Ser capaz de fazer as minhas próprias camisolas e cachecóis, saber fazer tranças africanas, cuscuz marroquino, saber mais sobre a infância dos meus avós, ainda jogar às damas com eles, saber jardinar e, claro, saber cozinhar Papas de Carolo de cabeça. Agora, entendo porque os nossos antepassados são tão preciosos, são uma fonte inesgotável de conhecimento e amor. Com quase 40 anos, posso dizer que tive sorte em conhecer todos os meus avós e até duas bisavós. Guardo fotografias e muitas recordações maravilhosas, mas não é o suficiente. Por isso, quando vejo uma pessoa idosa na aldeia ou passar à minha caixa no supermercado, começo a conversar com ela e assim, tenho a certeza de que vou aprender algo novo.

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